segunda-feira, 2 de abril de 2012

Inconfissões V

"Ignorar teu choro e só cuidar de mim"
Chico Buarque - Uma canção desnaturada

Preciso de um lugar que seja meu, para que possa construir, ainda que sozinha, uma vida que seja minha. Aqui não encontro mais espaço, e não são os livros que ocupam a maior parte de tudo, tampouco o quarto apertado em que vivo. Nunca pertenci a esse lugar e parece que como tempo a sensação de não-pertencimento continuou crescendo. Não sou daqui e, além disso, peso. Peso no ombro alheio, nas vistas alheias. Peso em um ambiente no qual não me encaixo.Embora tenho feito morada dentro de mim, as paredes começam a se mostrar gastas e parece que a casa que já sustentou tanto está prestes a ruir.
Não pertenço. Não me pertenço quando aqui dentro estou. E todo dia a vontade é de não regressar. Seja por falta de coragem, falta de impulso, vou restando. E, claro, pagando o preço. Ocasionalmente sinto-me amarga. Confrotada, criatura reconhece em si o próprio criador. E dói. e faz-me ainda mais amarga. Fechada. Hermética. Incapaz de dividir a aflição. Não sei ao certo o que de torpe ainda me prende aqui. O sibilar da serpente talvez. Resto em um ambiente em que não me reconheço. E parece que sou cada vez mais eu, dentro mim. No entanto todos os dias em que me olho no espelho vejo menos de quem sou.
Não quero um lugar para recomeçar. Quero um lugar para ser. Para que possa existir do modo que nunca pude. Para que possa ser além de mim, aquém daqui. E, que se quiser ser nós também possa. Quero existir sem medo de me tornar criador. Desfazer o vínculo que se outrora alimentava, agora só é capaz de produzir veneno. Quero-me pura. Ímpia. O silêncio dentro de mim. O cessar das vozes.
Quero poder ouvir o som do meu próprio silêncio, encontrar em mim o que não é inferno. Quero existir para além dos meus limites. Para além de todas as vozes que me dizem e sempre me disseram não.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ah, Pessoa que sabe de tudo, tudo:

"Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço..."

domingo, 25 de março de 2012

"It's a very, very mad world, mad world"

"(...) no meio do inferno procurar e saber reconhecer o que não é inferno, fazê-lo durar, dar-lhe espaço".

As Cidades Invisíveis, Italo Calvino.

O último mês passou. Para mim o tempo se travestiu e 31 dias pareceram um ano. Foi pesado, duro, difícil, dolorido. Foi a prova de que o difícil mesmo é tentar fazer tudo do modo correto. Quer ser decente exige muito, que a paz do justos não é tão pacífica assim e nem chega de maneira rápida. Ser honesto é uma conquista, não se deixar corromper, não sucumbir ao mínimo custa muito. E se esse é o preço a se pagar, tudo bem, que venham me cobrar. Os dias têm sido. Apenas isso. Eu conto e risco na folhinha do calendário. Um dia a menos, um dia a mais. E sinto falta, aquela ausência que se faz no meio de tanta presença, sabe? Ausência: aquela presença que significa como disse a Norma uma vez.

Assim, tenho vivido às prestações, aos bocadinhos, um dia de cada vez, esperando que amanhã eu possa segurar na tua mão,sair pra tomar café com você, te olhar sem ter que me precaver com o olhar alheio. Esperando que possa ter o simples, as coisas miúdas que significam tanto e que quando estou ao teu lado significam ainda mais.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

não conheço a palavra desistir.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Como se o necessário silêncio da janelinha me matasse um pouquinho mais. Um dia a menos, espero eu.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ímpar em mundo de par. Só para me lembrar o que eu, por descuido, esqueci por um tempinho.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Custa os olhos, custa o coração, custa o peito não tão forte ser adulto. Mas é preciso sê-lo. Para o bem e para o mal.